Aquele dia em que tudo parecia normal, a panela de pressão apitava a todo vapor. A cisma de tornar tudo mais leve fez com que ela seguisse até uma birosca para comprar seu vício: uma cervejinha para acabar aqueles afazeres. A vida sendo uma constante poesia aos olhos dela, o sol sempre brilhava mais forte. A contestação da aceitação também sempre a acompanhou: “ele não gosta de mim”, entre flores no caminho, ela nunca soube lidar com a rejeição.
Ela brinca com essa dor antiga, faz artimanhas, sobrevive abreviando a solidão. No meio do caminho, o passado resolveu dar as caras, assim, sem dó nem piedade. É por essa razão que ela nunca gostou de deixar nada mal resolvido. A vida põe sempre na mesa as cartas perdidas; o vento sempre sopra, tirando a poeira encalacrada na dor de alguém. De um lado, alguém está bem; do outro, existe o que não entendeu o adeus a sangue frio.
A distância de anos foi sugerida, aparentemente era o certo a ser feito. Sabe aquele “certo” feito de maneira errada? Então, foi assim.
A menina, do nada, se impõe de uma maneira super delicada, afetuosa, amigável demais, e chama o passado de volta. Aí vale a reflexão de o quanto vale ou não trazer o que passou. O passado pode ser cura, mas também pode ser um emaranhado de laços que só não apertavam pelo fato de ambos respeitarem a distância.
A vida é, sim, na maioria da nossa existência, feita de bagagens: umas pesadas, outras leves, mas que sempre são fatos que, quanto mais ignorados, mais se estendem em uma ilusão que parou no tempo. Ela o puxou de volta, reviveu seus sentimentos ternos por ele e expôs o seu amor amigo. O tempo parou. Várias mágoas foram ditas, e também sentimentos agarrados em um laço bonito em meio ao caos dos erros e acertos, entre o amadurecimento que só o tempo pode revelar.
Deste ponto, se retoma a vida, a paz, o prazer de ter alguém mais próximo, que te lembra aconchego, casa, família — aos olhos dela. Ela é misteriosa, entende tudo, decifra até o olhar. Essa menina é difícil de errar, paga pra ver a crédito e se joga na inconsequência de sua louca vida.
Vida cheia de “cafés”; aliás, ela cheira a café ao meio-dia. Acorda a hora que quer, não gosta de regras impostas por ninguém. Ela é doce, mas também é espevitada. Ela dança com os trovões em dia de tempestade. Sabe que pode tudo, só que faz questão do nada. O nada, para essa menina, é uma nova estrada.
E ele… ele é a solidão descrita pelos poetas. Educado, inteligente, meio perdido em seus confrontos de vida. E a gente seguiu a partir desse ponto com a convicção de que a vida é tão pequena para se perder caminhos, para se perder tempo. Tudo acaba em uma fração de segundos; para ela, essa fração de segundos se estende a um tempo que floreia o fim.
CONTINUA...

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